Diversidade nos Livros

Ocorreu-me falar sobre este tema enquanto lia um dos quatro ou cinco livros que estou a ler neste momento. Hoje em dia fala-se imenso em diversidade e direitos e igualdade e todo um conjunto de questões que acabam por ser transportadas também para o mundo editorial.
Poderá ser importante referir, desde já, que sou completamente a favor de todo o tipo de diversidade e que não estou aqui para julgar ninguém pelos seus gostos, crenças ou escolhas. Posso até dizer-vos (e quem me conhece pode comprovar) que uma das coisas que mais me tira do sério é, em pleno século XXI, este país ter um grave problema de «mente retardada» e de se julgarem as pessoas pelo que não é «normal», como se fosse uma doença. Há julgamentos dignos da Idade Média. Só lhes falta mesmo condenar as pessoas à forca ou à fogueira.
E, no entanto, precisamente por, para mim, o «diferente» ser tão normal, há coisas que me causam algum ruído no cérebro.

Sinto, ao ver vídeos no Booktube, ou ao ler certos livros e certas críticas, que existe uma pressão enorme para que os autores escrevam livros em que impere a diversidade. 
Acho bem que os livros tenham personagens diversos em todos os aspectos, mas o facto de parecer forçado, acaba por tornar a experiência de leitura em algo demasiado falso.
Parece que os autores sentem que se não descreverem fisicamente o personagem, não lhe derem um nome que indique que não é caucasiano ou não lhe conferirem uma sexualidade diferente, irão ser crucificados pelos leitores.
No entanto, a mim, isso parece-me pouco natural. Se a coisa for bem feita, de forma transparente e espontânea, não colocando apenas uma informação solta a meio do livro, que nos indica que personagem X é assim ou assado, tudo bem. Ainda assim, não sinto que exista qualquer necessidade em dizer que o personagem é branco, negro, etc., etc. Na cabeça do leitor, o personagem pode ser qualquer coisa, pode ser algo que não tem nada a ver com o que o autor imaginou. Muitas vezes certas atitudes e certos diálogos fazem com que criemos a imagem mental daquele personagem, com tudo incluído. Quantas vezes, numa adaptação dos livros a cinema ou série, não dissemos para nós próprios que este ou aquele não tem nada a ver com aquilo que imaginámos?
Para mim, como leitora, o importante é que tanto os personagens como a narrativa sejam interessantes, bem desenvolvidos e que tenham algum impacto. Porquê ler um livro com a atenção focada para perceber se existe ou não diversidade? A diversidade pode estar presente na minha interpretação do que estou a ler. Não percebo sequer que haja quem possa atribuir uma classificação pior a um livro só porque não tem personagens diversos.
Imaginemos a polémica da Hermione ter sido interpretada por uma actriz negra na peça Harry Potter and the Cursed Child, a que J. K. Rowling respondeu, com toda a razão, que nunca mencionou nos livros a cor de pele da personagem. Tudo o que a autora fez foi referir que era uma menina com uma farta cabeleira castanha, e isso tanto se pode aplicar a gregos como a troianos. Fica na imaginação de cada um.
Sinceramente, compreendo a pressão por que os autores estão a passar e que acabem por escrever os livros de modo a agradar o seu público-alvo, mas há alturas em que parece demasiado, forçado e pouco natural. Acho bonito, é óbvio que considero importante e gosto de ler livros plenos de diversidade quando é algo bem feito. Mas, da forma como o tema nos tem sido apresentado em alguns livros é, muitas vezes, desnecessário e só leva mesmo a crer que o autor incluiu aquele pormenor para não ser, também ele, lançado à fogueira.
Se o ser diferente é perfeitamente normal, não deveria ser também perfeitamente normal haver diferença sempre e desde sempre nos livros, de forma genuína?





Sentem o mesmo? Já tinham pensado nisto?
Partilhem todas as vossas opiniões!



 
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Comentários

  1. Concordo com as tuas palavras mas, em relação à polémica provocada pela Hermione, já não concordo ;)
    O J.K.Rowlig sentiu-se pressionada a dizer tal coisa porque também ela estava a ser atacada pela falta de diversidade nos seus livros. Tanto que referiu somente que o dumbledore era gay numa fase muito posterior aos livros e, em relação à cor de pele de Hermione há VÁRIAS passagens ao longo dos livros que indicam claramente que a Hermione tinha a pele branca e é caucasiana. A justificação dela poderia ter sido outra, mas não foi. Um, "porque sim" acho que teria sido melhor.

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    1. Confesso que não me lembro nada de referirem a cor de pele dela mas eu não li propriamente os livros, ouvi os audiobooks e há pormenores que me podem ter passado, obviamente. Mas as referências que vejo os fãs fazerem relativamente ao «branco» estão todas relacionadas com emoções, tipo «ficar branca como a cal», por estar assustada ou coisas do género.
      Em relação ao Dumbledore... Ela referiu 10 anos depois da publicação do primeiro livro (em 2007) que sempre pensou nele como sendo gay. Entretanto já passaram mais 12 anos desde que ela disse isso e, sinceramente, sinto que essa pressão aos autores é muito, muito mais recente que isso.
      A verdade é que em personagens que não nos são descritas como sendo assim ou assado, só o autor é que sabe o que lhe ia na mente, assim como nós podemos fazer deles aquilo que interpretarmos das suas acções :)

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  2. Concordo plenamente, para mim uma personagem é criada por mim, na minha imaginação de acordo com o que vou lendo, para mim, a Arsinoe tem uma cara e postura, para ti outra claro. Também já senti em certos livros ser forçada a atribuição de características com diversidade a certas personagens e para além disso chega ao ponto em que muita gente do booktube estrangeiro acha certos livros MUITO bons, quando são só giros, só porque têm diversidade. Quanto à Hermione, não me aquece nem arrefece, o que não falta são pessoas de diversas cores em Inglaterra, já há muitos anos, portanto há muitos britânicos de cor. Quanto ao Dumbledore gay, ela pode nunca o ter indicado de forma explícita nos livros, no entanto é clara a dinâmica entre ele e o Grindelwald nos livros... pode ser uma referência curta, mas quando li a história deles no passado do jovem Dumbledore, é claro que ele estava encantado com o Grindelwald, de forma romântica. Isto claro, na minha interpretação.

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    1. Ahahah adoro que tenhas ido buscar o exemplo da Arsinoe <3
      Concordo com tudo. Soul mates for life :P <3
      Mas sim, toda a história que envolve a morte da Ariana e o que vem escrito no «Vida e Mentiras de Albus Dumbledore» (Talismãs da Morte) deixam um bocado a dúvida de que o que havia entre eles era apenas uma amizade: ‘So that, when my mother died, and I was left the responsibility of a damaged sister and a wayward brother, I returned to my village in anger and bitterness. Trapped and wasted, I thought! And then, of course, he came …’.

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